
Irineu era um garoto de 8 anos quando começou a trabalhar na Farmácia Cruzeiro de Florestal. Trabalhou também na Escola Agrícola daquela cidade, onde conheceu o patriarca Modesto Araujo, que costumava hospedar-se lá no Hotel dos Fazendeiros. O diretor da escola, Esmeraldo Botelho, apresentou o jovem Irineu ao Sr. Modesto: “leva esse menino com o senhor lá para a capital”. Tinha 16 anos e entrou ganhando meio salário mínimo: Cr$ 130 cruzeiros. Corria o ano de 1942. Ainda hoje, aos 86 anos de idade, Irineu continua emprestando sua vasta experiência à Drogaria Araujo. É o funcionário mais antigo da casa, uma lenda viva, que conhece a história inteira da casa. São 70 anos de Araujo. É claro que já conquistou o privilégio de aparecer quando quer, mas a empresa não abre mão de sua presença. Tem mesa no escritório da Administração e, quando não está em pescaria com a turma, sempre dá o ar da graça.
Lembra bem quando chegou por aqui. O ônibus descia na Praça Rio Branco, em frente à loja Matriz. Chegava de guarda-pó, cheio de poeira da estrada de terra. Não conhecia nada da capital. Foi morar ali perto na Lagoinha (Rua Diamantina), de lá era fácil tirar uma reta para chegar ao trabalho. Na época, além da Matriz, existiam as lojas Ibaté, Mercado e Floresta (que depois fechou, na Avenida do Contorno). Como tinha experiência de farmácia desde menino, foi direto trabalhar no laboratório. Fazia manipulação, fabricava remédio, atendia no balcão, aplicava injeção. Como a matriz ficava perto da zona boêmia, costumava tirar plantão na casa das damas da noite, aplicando benzetacil contra gonorréia, remediando sífilis, cavalo, cancro e outras doenças sexualmente transmissíveis.
Memória fresca, Irineu se lembra de tudo. Trabalhou no plantão noturno durante dois anos, em rodízio com Francisco Viegas e com o farmacêutico José Ribeiro Freitas. Entrava às 7 da noite e saía 8 da manhã. O técnico do laboratório era Rodrigo Agnelo Antunes. Os manipuladores eram Wanderley Antunes, Eleuzipo, Serafim Neves e João Batista. Irineu ajudava a fazer as fórmulas, embalava mercadorias que chegavam a granel, os chamados produtos oficinais: diadermina (pomada hidratante, manchas e rachaduras na pele), água de alibour (antisséptico no tratamento de feridas), pasta de Lassar (dermatoses, queimaduras), pomada de Milian (sarna) e cápsulas antigripais, tudo fabricado na Araujo. Lembra também que “a fórmula do Sr. Levi Morais Silva para gripe infantil era uma beleza”, e que “as ampolinhas de penicilina vinham dentro de garrafas térmicas, com gelo lá dentro”. Depois, Irineu foi trabalhar na seção de varejo, fazendo embalagens para mercúrio cromo, iodo e limonada purgativa, tudo no vidro, não havia plástico. Além da Drogaria Araujo, o Sr. Modesto mantinha também o Laboratório Quimioterápico Araujo, que ficava na Av. Silviano Brandão. “Eu ajudava muito lá também. Quando fechou o laboratório o Sr. Modesto me deu 500 cruzeiros para eu passear”.
Por volta de 1945, foi convocado para trabalhar no setor de compras com o Sr. Manoel Duarte, que tinha comprado do Sr. Artur Vidigal parte da sociedade na Araujo. Lembra dele como um homem bom, mas muito vaidoso: “Difícil trabalhar com ele. Chegou e quis tomar conta de tudo, demitiu compradores, centralizou tudo na mão dele. Comprava produtos para dois anos, aí eu tive que fazer um controle de prazos mais severo para não perder mercadoria”. Na época não havia data de validade. Os medicamentos demoravam às vezes mais de dois meses para chegar. A Araujo distribuía também para cidades do interior. Ele lembra que levava as encomendas de carroça até a estação ferroviária e lá os despachava para Januária e outras cidades. E demorava muito também para receber. Irineu conta que a casa vendia muito fiado e, quando o Sr. Modesto resolveu fazer cobrança bancária, a turma do pendura ficou ressabiada. De toda forma, comprar para a Araujo é uma tarefa dura até hoje: “Desde os tempos do Sr. Modesto, aqui não pode faltar nada. A ordem é ‘Araujo tem’. E se não tiver manda buscar”.
Em 1975 aconteceu o caso mais pitoresco dessa história: Irineu ganhou na loteria esportiva – Cr$ 375 mil – e cismou de comprar a Drogaria Trade. Queria ter a sua farmácia para tocar a vida com mais tranqüilidade e ter o que fazer depois que se aposentar. Juntou todo mundo – Sr. Modesto, Sr. Antônio, Eduardo – para convencê-lo. “Eles disseram: você fica e tem liberdade para fazer o que quiser, tudo isso que você sonha para o futuro você vai realizar aqui na Araujo mesmo. Dobraram o meu salário e me dobraram. Ofereceram regalias, mas eu continuei dando duro do mesmo jeito”.
Irineu passou por todas as gerações da Araujo: “Trabalhei com todos eles – Sr. Modesto, Sr. Antônio, Manoel Duarte, Joaquim Rocha, Eduardo Araujo – e todos eles tiveram muita consideração comigo. A maioria já se foi, e eu estou aí”. Guarda lembranças emocionadas de Eduardo: “Era uma mãe, gostava de inventar novidade e me chamava para acompanhá-lo em tudo o que fazia”. Sobre o atual Presidente, Modesto Neto: “O homem é bom de serviço, foi ele quem acordou a Drogaria. O gigante estava meio adormecido, ele chegou e sacudiu”. Irineu pede para anotar: “Toda vida fui tratado como da família, o que fizeram por mim você não imagina, não existe firma que faz igual”.
Perguntado sobre as razões do sucesso da Araujo, o Sr. Irineu não vacila: “primeiro, a honestidade; segundo, pé no chão; e terceiro: genro aqui não entra”.
Obrigado Irineu, pelos 70 anos de trabalho ao nosso lado. A sua marca estará sempre presente na Araujo.