Viver bem na Avosidade

CONVERSA DE VÓ é afago no coração. É também o nome do projeto da jornalista Natalia Dornellas que, semanalmente, tem o privilégio de conhecer histórias de avós e avôs de várias partes do Brasil e do mundo. Um privilégio que ela faz questão de compartilhar com todo mundo: é só chegar no perfil da Araujo no Instagram (@drogariaaraujo), sempre às quartas-feiras, às 19h, que o convite está feito desde já para que você também embarque nessa viagem.

Foi cuidando do seu pai, o Seu Adelair Toledo Dornellas, diagnosticado com uma doença neurodegenerativa (Degeneração Corticobasal – DCB), que Natalia descobriu o universo da longevidade. Ela criou o projeto A Mãe do Pai, compartilhando, em seu blog  e no Instagram (@nataliadornellas), o dia a dia ao lado dele. O projeto completou seu ciclo em 2019 com a morte do Seu Adelair, mas “o universo de amor que se abriu para mim quando cuidei do meu pai”, como ela diz, a fez continuar. Encantada por quem tem muita história para contar, ela decidiu ouvir e registrar pessoas entre 80 e 100 anos para realizar, junto de amigos — o fotógrafo Fernando Lutterbach, a jornalista Carol Godoi e o videomaker Júnior Reis —, uma exposição e um minidocumentário.

Em função da pandemia, os encontros presenciais tornaram-se virtuais. O formato mudou, mas a essência se mantém. Um encontro marcado com pessoas encantadoras, recheado de boas histórias — aquelas capazes de tocar todo mundo que tem coração.

Confira nosso bate-papo com a Natalia sobre o CONVERSA DE VÓ:

Além de uma conversa saborosa, o projeto é também um lindo exercício de escuta com quem tem tanta história para contar. Como você vê este gesto?

Não sei se posso afirmar com absoluta certeza, mas sinto que os mais velhos têm uma grande necessidade de se expressar, de falar mesmo. Mesmo que tenham companhia e o carinho da família, eles muitas vezes têm o círculo de relacionamento reduzido, em especial nesses tempos de pandemia. E, como já viveram tanta coisa nessa vida, querem falar, ainda que seja sobre o tempo. Meu pai, quando começou a ficar doente, me ligava para fazer o “informe meteorológico” de sua cidade. Eu percebia nitidamente que ele queria conversar, ainda que fosse sobre a falta ou o excesso de sol, e parava o meu mundo para ouvi-lo.

O que podemos aprender com estas avós e suas histórias; o que você tem aprendido?

Eu sempre digo que nossos velhos são verdadeiras enciclopédias e têm saberes variados. Mesmo os que não tiveram estudo formal têm muita coisa a ensinar, pois aprenderam na raça, além de que há coisas que a gente só vai saber depois de muito tempo de caminhada. Nesses nove meses de CONVERSA DE VÓ, eu já aprendi coisas incríveis, que vão de receitas de quitutes, simpatias e chás a simples constatações sobre a vida. Vou citar duas frases de que me lembro agora. Dona Edetildes, uma goiana de 97 anos, vive dizendo que “não há dia cinzento que um batom vermelho não possa aliviar”. Já a Maria José, mestra de yoga que tem 87, me disse: “Não tem problema errar, a gente erra porque ainda não sabia.” Quer mais sabedoria do que a dessas mulheres? Estou até pensando em fazer uma série de pôsteres com as frases delas, para que ninguém se esqueça.

Para você, qual o significado de Viver Bem na Avosidade?

Para mim a Avosidade é mais uma fase da vida, uma condição adquirida por direito, persistência e amor, e a maioria das personagens me diz que é um momento de colher frutos, receber carinhos e — por que não? — curtir a vida. Viver bem na avosidade, eu acho, é caminhar pela velhice que pode e deve ser cada vez mais longa graças aos avanços da ciência, com leveza, afeto e saúde. É ter planos, ainda que sejam simples, e alguma conexão com o divino, pois todos os meus personagens, sem exceção, me falaram de seu contato com Deus.