Tudo passa

crise coronavírus

“Sou casada  e tenho dois filhos. Um, de 10 anos e um de 14. Estou simplesmente desesperada com a Pandemia. Não tenho mais um minuto de sossego. Só penso em morte, na perda dos meus filhos e marido e na dificuldade financeira. Ajude-me!”

Clarisse, de Belo Horizonte.

Apesar de o processo de mudança fazer parte intrínseca da natureza humana, a maioria de nós resiste ferrenhamente a toda transformação. Essa resistência aparece na forma de ansiedade, angústia e medo. Sonhamos, como nos ensinaram, com um mundo estável, permanente e seguro. Vivemos como se a nossa vida, incluindo nossas relações, nosso trabalho, nossa moradia, fossem ou devessem ser como sempre foram. Daí, nossa dificuldade para o risco, para o crescimento, para decisões que impliquem mudanças. Mesmo quando racionalmente sabemos que qualquer mudança, se bem aproveitada, é para melhorar nossa existência, uma trava interna nos paralisa: o medo do desconhecido.

As mudanças são inevitáveis, independentemente de nós nos opormos a elas. Haverá alguém que não vai envelhecer, adoecer ou morrer? É obvio que, quando nosso coração se abre ao processo natural da mudança, podemos escolher quais mudanças nos interessam, quais não queremos, quais são boas, quais não são e, sobretudo, como vamos atravessar as mudanças inevitáveis.

 Se, ao contrário, optarmos pelo apego, pela conservação, todo convite à saída de nossa “zona de conforto” será percebido como ameaçador. Isso nos causará sofrimento e não vamos enxergar os novos caminhos de progresso e realização pessoal. A felicidade só é possível com os pés em movimento. 

Acho linda a lendária história das águias. A águia é a única ave que vive 70 anos. O mistério de ela viver tanto tempo está em uma crucial decisão que ela tem de tomar por volta dos 40 anos. Nessa idade, suas unhas estão bastante compridas e fracas. Seu bico já está bastante curvado e gasto. As asas não são as mesmas, pois estão envelhecidas e grossas, o que dificulta os voos mais audaciosos, como eram antes. Neste momento, ou ela aguarda a morte, sem nada fazer, ou encara uma mudança que dura cinco meses. 

Optando pela vida, ela voa e se recolhe em uma montanha, e se aninha próximo a um paredão, onde não precisa voar. Aí ela começa a bater seu bico contra a rocha e prossegue sucessivamente nisso até arrancá-lo. Depois, espera, pacientemente, que um novo bico nasça. Com o novo bico, ela arranca impiedosamente as velhas unhas. Quando as novas unhas aparecem, é hora de arrancar as velhas penas, e ela assim o faz. Somente depois de 150 dias, já com novas penas, ela pode sair para o voo da renovação e viver mais 30 anos. 

Esse é um bom exemplo para a nossa trajetória humana. Criar novas asas de tempos em tempos, para buscar nossos sonhos, nossos desafios, nossas realizações. A acomodação, em qualquer nível, é lutar contra a corrente da vida. A aceitação incondicional de que a nossa vida é transitória nos faz viajantes à procura sempre de novas paisagens, novas relações, novos empreendimentos.

 O maior risco nós já corremos: ter nascido. Agora, é andar.

 E se eu escolher um caminho de mudança e não der certo? Mude outra vez.

Certa vez, um amigo, após me expor algumas de suas ideias, perguntou-me: “Você acha que estou no caminho certo?”

Perguntei-lhe: “Você está dando algum passo novo na sua vida?” 

“Estou”, respondeu-me.

“Então você está no caminho certo”, concluí.

A vida, os relacionamentos, a profissão, as coisas, são para serem vividas, e não para serem conversadas. A mesmice vital é responsável pelas depressões. A vida está para o movimento assim como a morte está para a inércia. Quando não mais respondemos às solicitações das mudanças, estamos mortos.

Mesmo porque “nada do que foi será de novo como foi um dia. Tudo passa, TUDO SEMPRE PASSARÁ.”

 

Antônio Roberto, Terapeuta do Comportamento.