Entusiasmo para viver

Já faz algum tempo que me sinto desanimado em várias áreas da minha vida, principalmente agora com essa pandemia que nos ataca e deprime. Qual o segredo para me sentir motivado neste momento? 

Sandro, de Belo Horizonte

Nunca se falou tanto em motivação como atualmente. As empresas dedicam atenção especial para a motivação de seus empregados através de palestras, seminários e planos de incentivo. A busca da motivação se espalhou também para outros campos na família, na educação, no esporte e há várias teorias sobre a motivação. Não há um consenso sobre por que algumas pessoas são entusiasmadas, alegres, dispostas a lutar, e outras, como o leitor acima, desanimadas, deprimidas e acomodadas. 

O grande segredo para a motivação é compreendê-la sabendo o que ela é, de onde vem e, portanto, como alcançá-la. A primeira coisa a considerar é que a motivação, o desejo de viver, o entusiasmo, não é algo que se adquire, e sim já faz parte da natureza humana, consequentemente, todos nós já possuímos. Já nascemos motivados e, com o tempo, vamos aprendendo a abafá-la, a negá-la, a fazer coisas que nos entristecem. Isso significa que a verdadeira motivação não vem de nada externo a nós, ela é interior. È uma força que já possuímos e que se estiver adormecida, temos de despertá-la. Não são as circunstâncias que nos motivam, mas a forma como lidamos com essas circunstâncias. É claro que o incentivo externo, como o elogio, vitórias alcançadas, êxito em alguma área, palavras de entusiasmo e recompensas podem nos estimular, mas tudo isso enquanto fora de nós são apenas estímulos passageiros. Na verdade, ninguém motiva ninguém.

A idéia difundida de que alguém pode nos fazer feliz ou que podemos fazer alguém feliz é falsa. Cada um é responsável pela sua própria vida, pela forma como vê o mundo e pelo grau de energia com que vive.

Somente eu posso me fazer feliz. Para uma pessoa pessimista, por exemplo, que vê o mundo como mau, que espera sempre o pior, sempre é cheio de medo e culpa, de nada adiantará alguém gritando no ouvido: “Vamos, você dá conta! Você vencerá! Querer é poder!” A nossa contribuição à alegria do outro é ensinar-lhe a se auto-motivar, a não precisar de nós para ser feliz.

 A importância dessa consciência vem do fato de que vivemos numa sociedade que nos ensina exatamente o contrário. 

Atualmente, 90% das pessoas acreditam piamente que a sua felicidade depende daquilo que têm ou fazem, como casar, estudar, ter filhos, ganhar dinheiro, comprar uma casa maior, ter carros, não existir CORONAVÍRUS.

Além de falsa, essa concepção nos leva a uma visão perfeccionista do mundo. Acabamos por acreditar que só seremos felizes se nada de ruim nos acontecer, e a consequência é que poderemos gastar toda a nossa vida nos empenhando em fazer muito e adquirir muito na esperança da felicidade.

A depressão é uma tristeza profunda e isso muitas vezes ocorre quando a pessoa descobre que não há uma alegria permanente, que nada é perfeito, apesar de todo o esforço despendido para um casamento ideal, filhos perfeitos e relações perfeitas. Ao invés de gastarmos energia aprendendo a ser feliz, apesar dos pesares, nós a gastamos para controlar o mundo e as pessoas para que nos façam felizes.

A origem da palavra motivação vem de motivo, aquilo que, vindo do nosso interior, nos leva a agir. Motivação é igual a motivo para a ação. E qual é o motivo forte para agirmos?

 O mesmo que nos leva a nascer, a respirar, a andar, a amar e a trabalhar.

 É um impulso interno para a vida. São os nossos desejos.

 A motivação começa sempre pelo desejo, pelos nossos interesses e, quando conversamos com uma pessoa deprimida, o que percebemos é o desinteresse em sair de casa, estudar, etc. Ou seja, não quer viver. 

O desejo é que faz florescer nossas realizações humanas. É o desejo e não a capacidade que leva uma pessoa a viver melhor, com alegria e a alcançar muitas coisas na vida. 

Não é raro vermos pessoas comuns realizarem coisas incomuns. Qual o segredo? Um sério compromisso interno com o próprio desejo, afinal quanto mais forte essa chama, essa vontade, mais motivação. 

Não adianta apenas desejar, sonhar, pois qualquer desejo e sonho, por menor que seja, tem de estar atrelado a um compromisso consigo mesmo à ação.

O compromisso e a determinação interna nos tiram da fantasia e nos fazem enfrentar os limites e as adversidades, por piores que elas sejam, O fato de estarmos vivos, comprometidos com nossos desejos, dando um sim à vida é a verdadeira motivação. Qualquer motivação que depender de termos sempre sucesso, de nunca errarmos, de conseguir alcançar todos os nossos desejos, de o mundo ser perfeito, é uma motivação perigosa e fonte de frustração e sofrimento. Como diria Guimarães Rosa, o importante não é o início nem a chegada, mas a travessia. Nossa vida é uma viagem onde o motivado é aquele que se delicia com a paisagem, com o compromisso, com o desejo e com as tentativas. Passar por essa vida sem vitalidade, chorando a realidade humana, é perder a possibilidade única de usufruir ao máximo a experiência humana, que apesar de dolorosa, é a única saída para os que querem viver com amor, com sabedoria e, sobretudo, feliz.

Antônio Roberto, Terapeuta do Comportamento.