Sobre a morte

“Antônio Roberto, perdi a minha mãe há seis meses. Estou muito deprimida e a vida perdeu a graça. Por que é tão difícil resolver as perdas, principalmente agora, em tempos de coronavírus? Por que isso aconteceu comigo?”

Tereza, de Belo Horizonte

É muito difícil tomarmos consciência de que a vida é, pela sua própria natureza, feita de perdas. Ganhar e perder são faces da mesma moeda humana. Quando nascemos, ao ganharmos a existência, perdemos o conforto do útero materno. A partir daí, nosso caminho será sempre de ganhos e perdas. Acontece que nossa cultura esconde essa verdade universal e passamos toda a nossa existência lutando para sempre ganhar e nunca perder. Nós sabemos lidar com as vitórias, com o sucesso, com o nascimento, e não sabemos lidar com o fracasso, com a separação, com a morte. O único mecanismo que aprendemos foi a lamentação, como se o que nos aconteceu fosse um absurdo. Como se fosse possível passarmos pela vida sem que haja a morte de alguém querido. Por isso a pergunta da leitora acima: “Por que isso aconteceu comigo?”. A pergunta evoca um tom de queixa, como se ela tivesse sido injustiçada pela perda da mãe. A verdadeira pergunta deveria ser outra: “Por que não comigo?”, já que todos nós passamos, estamos passando ou passaremos por perdas. 

A crença generalizada na permanência das coisas e das pessoas é uma negação da realidade fundamental da vida humana: a transitoriedade, a impermanência. Qualquer perda é um processo. Navegar nesse processo interno, aumentando a consciência da realidade, é o único caminho capaz de nos levar à finalização do processo doloroso que é a aceitação. Isso leva certo tempo e tem o nome de luto. O caminho do luto, após uma morte, uma separação ou um fracasso é um caminho conflitivo entre o que aconteceu e o que gostaríamos que tivesse acontecido. Caminhar essa dor exige de nós uma postura ativa de avançar nas várias etapas que constituem a elaboração de qualquer perda. 

O primeiro mecanismo diante da morte é a negação. Fazemos de tudo para negar e contestar o acontecido: “Não acredito que isso aconteceu”. Se aceitamos essa fase, e diante da importância de reverter a situação, um segundo mecanismo aparece: a revolta, a raiva diante do fato. A irritação e a ansiedade nos levam a blasfemar, a condenar os possíveis responsáveis por aquela perda: a medicina, a vida, Deus etc. Mas, com nossa indignação consentida de não conseguir mudar o acontecido, passamos para o mecanismo da depressão. Entristecemo-nos profundamente e quase que morremos junto com a pessoa que perdemos. A vida perde a graça. Nós, que queríamos uma vida perfeita, permanente e eterna, descobrimos, na marra, que isso é uma fantasia e que tudo passa. Um profundo pesar toma conta de nossa alma. Se aceitarmos essas fases e esses sentimentos, se os expressarmos sem negá-los, com o tempo, por serem inúteis, transformar-se-ão numa total aceitação.

Não devemos ter pressa em aceitar a perda, só não podemos empacar em qualquer ponto do processo, transformando a tristeza, por exemplo, em um modo de vida. Atravessar a dor é o mais importante. Sofrer, mas andando, compreendendo, aprendendo o real. Toda perda é uma sacudida na ilusão da possibilidade de uma vida perfeita. É um chamado para viver mais intensamente, já que a vida passa e a perda existe. Em vez de raciocinar como alguns o fazem, dizendo: “Já que vou morrer, para que viver?”, devemos raciocinar exatamente de maneira contrária: “Já que vou morrer, deixe-me viver.” Não existe outra saída para nossas perdas a não ser atravessar com dignidade esses momentos. A tristeza, a raiva, o desânimo, a saudade, o choro, a dor, são todos sentimentos que devem ser vividos com intensidade quando estamos de luto. Se tivermos em mente a transitoriedade de tudo, sabemos que também esses sentimentos são transitórios. E isso nos permite ver com esperança qualquer fracasso, já que, mais cedo ou mais tarde, nosso coração voltará à alegria, apesar de tudo. 

Antônio Roberto, Terapeuta do Comportamento.