O que é o outubro rosa?

Outubro Rosa: como surgiu e porque é tão importante

Nesta época do ano, vemos a cor rosa na iluminação de prédios públicos, em laços de fita, em campanhas publicitárias, revistas, redes sociais… É o Outubro Rosa, um movimento que surgiu nos EUA e se espalhou pelo mundo. A ideia dos laços começou a se popularizar por lá em 1991 a partir da “Corrida pela Cura de Nova York”, em que eles foram distribuídos a todos os participantes. Foi uma forma de chamar a atenção para conscientizar sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce ao câncer de mama. Aos poucos, os laços de fita rosa se consolidaram como um símbolo para lembrar dessa luta.

E, assim, todo ano tem Outubro Rosa pelo mundo, porque compartilhar informações pode, sim, fazer toda a diferença. No Brasil, mais de 30% dos diagnósticos acontecem já em estágio avançado, o que torna o tratamento bem mais complicado. Por isso, o lema é “quanto antes melhor”, mesmo nome da campanha deste ano da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM).

De acordo com o Ministério da Saúde, toda mulher com idade entre 50 e 69 anos deve realizar o exame de prevenção a cada dois anos. Já a recomendação da SBM é de que uma rotina de exames preventivos tenha início a partir dos 40 anos.

Não precisa sentir medo de fazer o autoexame ou de pedir para marcar exames de imagem. É exatamente quando se encontra algo que se torna possível tratá-lo [confira abaixo o depoimento cheio de franqueza da Isabela Scarioli, que recebeu o diagnóstico e passou pelo tratamento]. O importante é se informar, não tratar como tabu. Juntas, informação e prevenção podem salvar muitas vidas.

Faça parte deste movimento!

Conheça a história da Isabela Scarioli, que recebeu o diagnóstico de câncer de mama em 2017.

“Eu não tinha costume de fazer o autoexame. Mas eu tinha casos de câncer de mama na família. Por isso, minha ginecologista sempre me pedia um ultrassom. Acontece que ela parou de atender, eu passei a ir cada hora numa ginecologista diferente e a última me falou que eu não precisava repetir o exame — eu tinha 34 anos e tinha feito o último com 33. Um dia, eu tinha acabado de malhar, senti uma coisa dura no meu peito quando tirei o top. Pensei: “deve ser uma íngua”, mas o negócio não sumiu. Fui a outro médico, fiz uma mamografia que detectou uma mancha, mas não dava para ver muito bem o que era. Foi aí que ele pediu um ultrassom. Quando eu fiz, falei “lascou, é câncer”, porque tem lá falando BI-RADS [sigla para Breast Imaging Reporting and Data System] e o meu era 4, mais de 50% de chance de ser câncer. Demorou para caramba o exame. Saí do ultrassom já chorando, mas ainda com alguma esperança. Fiz a biópsia e fui ao mastologista, que foi quem me deu a notícia.

Fiquei muito arrasada, meu mundo caiu, eu abri a boca a chorar, você acha realmente que a sua vida acabou. Eu tinha 34 anos, e foi muito ruim. Como nenhuma notícia ruim vem sozinha, fui fazer mais exames e o oncologista falou: “não sei se você sabe, mas a quimioterapia provoca uma menopausa medicamentosa, que pode nunca mais voltar.  Se você quiser ter filhos (eu não tinha filhos) você precisa congelar seus óvulos”. Aí, começou uma corrida contra o tempo.

Meu diagnóstico foi numa quinta-feira, eu fiz minha cirurgia para tirar o câncer no sábado, porque o índice de proliferação das células era muito alto, era muito perigoso eu ficar com o câncer, tinha que ser rápido. Na semana seguinte, eu já comecei o tratamento para congelar os óvulos. Ao mesmo tempo, eu tive uma infecção da cirurgia, então eu voltei e tive que ficar internada, fiquei com uma ferida na mama por muito tempo, até setembro, quase o período completo da quimio (de maio a outubro de 2017).

Perguntavam para mim o que eu fiz para merecer isso. Outra clássica é “você vai sair melhor dessa”, “você vai aprender muito”, como se o câncer fosse um retiro espiritual. As pessoas não têm a menor noção. Elas falam assim: “você está com câncer? Eu conheço fulano de tal que morreu”; as pessoas podem ser muito insensíveis mesmo.

Uma coisa que me ajudou muito foram os amigos, a família, meu ex-marido (na época eu era casada). Essa força de as pessoas não me deixarem sozinha me ajudou demais. Escrever me ajudou muito a organizar a cabeça. Também fiz uns vídeos na época, falar do assunto para mim era muito bom. Diferentemente de outras pessoas, eu quis muito saber, então eu fui ler, li vários livros sobre câncer. Li o “Imperador de todos os males”, que é uma biografia do câncer, escrito por um médico de Harvard. Ele reconta a história da doença desde os primeiros relatos que alguém tenha feito de um tumor, como foi o tratamento, como descobriram a quimioterapia. É bem interessante o livro  e me deixou muito consciente da minha situação.

Depois eu ainda fiz o exame genético, descobri que eu tinha o BRCA1 alterado, que é o mesmo da Angelina Jolie. Então tive que retirar as mamas, depois tive que retirar os ovários. É uma doença muito cruel, muito grave, que te tira muitas coisas, que tem muito estigma, e você pode fazer tudo certinho e dar tudo errado. No meu caso, deu tudo certo, mas eu perdi muitas coisas. Eu perdi minhas mamas, meus ovários, perdi uma certa ingenuidade, mas eu acho que eu ganhei várias coisas — não do câncer, porque não se trata de uma colônia de férias, de um retiro espiritual em que você atinge a iluminação, mas, com certeza, me tornei uma pessoa mais forte.

Eu entrei na menopausa com 34 anos, dois anos depois tive de retirar os ovários. Então eu entrei na menopausa definitivamente com 36 anos. Sua sexualidade muda, muda tudo. Depois que eu estava curada, meu cabelo estava crescendo, as pessoas me viam e falavam “nossa você está ótima, você está tão magra!” Eu respondia: “quimioterapia”. Essa mania que as pessoas têm de se meter né..

Hoje eu digo que é encarar a vida do jeito que ela é e ter senso de humor. Afinal, enquanto a gente não morrer a gente está viva; então bora viver, e bem viver! Quanto aos exames, tanto o autoexame quanto os exames clínicos mesmo, foi o que me salvou. Se eu não tivesse achado o caroço me tocando e fosse buscar ajuda eu teria morrido. Descobrir um câncer de mama cedo é a diferença entre ter chance de viver ou morrer.

* Você também pode encontrar a Isabela no Instagram: @ipscarioli. Lá, nos seus destaques, há uma série sobre o que mais ela aprendeu com a experiência.

 

O que dizer (e o que não dizer!) para quem recebeu o diagnóstico de câncer de mama?

“Você vai sair dessa melhor” não é exatamente algo bom de se ouvir. A intenção pode ser boa, mas nem sempre o efeito é. Diante de um diagnóstico de câncer de mama, o melhor é exercitar a escuta. É o que aprendemos ouvindo a Isabela e outras mulheres que viveram essa experiência. Reunimos aqui algumas reflexões a partir do relato delas.

– O diagnóstico ainda vem cheio de tabus, desinformação ou preconceitos. Deixe de lado o olhar de dó ou mesmo de acusação. Não se trata de um castigo ou de uma doença de quem tem ressentimento pela vida.

– Nem todo mundo quer receber uma mensagem de superação. Ao invés disso, prefira escutar.

– Ao ouvir o relato, deixe que a pessoa conduza a conversa.

Se você recebeu o diagnóstico:

– Tente não se importar com o que as pessoas vão dizer sobre você e sua doença.

– Falar sobre o assunto costuma ser bastante positivo. Há várias formas de se fazer isso: com profissionais especializados (como em sessões de terapia), em conversas com amigos com quem se tem mais confiança e intimidade, gravar áudios ou mesmo escrever sobre o assunto apenas para você.

– Além do tratamento indicado pelo seu ou sua médica, vale a pena se cuidar num sentido amplo, para além da doença. Terapias integrativas (que são aquelas que integram o tratamento, apesar de não ser a principal), como acupuntura, contribuem para a qualidade de vida da mulher.

– Não deixe de fazer as coisas que te dão prazer, seja sozinha ou na companhia de pessoas queridas.

– Doses de fé e coragem não têm contra-indicação.